Aprovada no CACD 2017, Maybi Mota comenta como organizou seus estudos de língua inglesa para o concurso. As perguntas foram elaboradas por alunos meus e generosamente respondidas pela diplomata. Espero que suas valiosas dicas de estudos possam ajudar outros candidatos com as provas de língua inglesa do CACD!

 

Você já tinha conhecimentos avançados da língua inglesa quando começou a estudar para o concurso?

Sim. Minha trajetória prévia ao CACD foi 80% baseada em estudos autodidatas. Sempre busquei oportunidades de praticar inglês, mesmo que não tivesse tido acesso a escolas privadas de línguas antes da faculdade. Quando cheguei aos estudos para o CACD, já tinha tido a oportunidade de morar fora (ainda que não em país de língua inglesa) e de ter feito meu mestrado em inglês, além de ter trabalhado como tradutora de notícias por quase dois anos. Em todo caso, quando comecei a estudar para o CACD, percebi que era necessário melhorar muito ainda.

Qual foi a melhor maneira que você encontrou para estudar vocabulário novo e fixa-lo?

Meu vocabulário só aumentou quando comecei a ler de maneira sistematizada, a fazer um banco de palavras e a estudar essas palavras repetidamente. Temos a impressão de que leituras livres aumentam o vocabulário, quando, na verdade, elas são apenas coadjuvantes. Nada substitui um estudo organizado e sistemático. Além disso, as dicas da Selene sobre aplicativos e os feedbacks personalizados sempre me ajudaram bastante a atentar para a polissemia de palavras que eu julgava dominar.

Como você estudava collocations, em particular?

Eu só descobri as collocations e melhorei meu domínio das preposições com os simulados da Selene. A partir de então, comecei a estudar as correções repetidamente e a usar dicionários de collocations. Ainda que eu soubesse que os simulados devessem ser feitos no tempo e nas condições de prova para um melhor aproveitamento, as collocations que eu não dominava eu sempre checava para não memorizar errado. Comecei a atentar para collocations ao ler e trabalhar com traduções também: sempre marcava combinações que desconhecia. Por fim, também me ajudaram os “sets” que a Selene criou no Quizlet e o banco de palavras que criei com a ajuda dela, pois havia um campo para collocations.

Que tipo de exercícios complementares aos simulados (vocabulário, gramática, tradução etc.) você acha imprescindível fazer?

Meus estudos giravam em torno dos simulados. Minha meta era sempre melhorar em relação aos simulados anteriores. Assim, eu estudava meticulosamente as correções e fazia os exercícios que a Selene recomendava, particularmente os do Grammar in Use da Cambridge. Além disso, fazia exercícios e práticas nos aplicativos. Por fim, se, feito tudo isso, ainda sobrasse algum tempo, eu lia algo da The Economist com atenção ao vocabulário e às collocations.

Como você se preparou para a primeira fase do exame? Apenas através da resolução de questões de interpretação de texto no formato das questões do CESPE?

Quando fiz uma avaliação dos meus pontos fracos ao começar a estudar para o CACD, percebi que a primeira fase de inglês não era um grande desafio para mim, de forma que sempre dediquei maior tempo à preparação para a prova escrita. Aproveitava parte desses estudos para a primeira fase. No mais, nunca deixei de fazer provas CESPE (de nenhuma matéria) e fiz simulados da Selene para não perder a prática.

Você tinha alguma estratégia no que diz respeito a deixar respostas em branco?

Não. Em vários momentos, cheguei a pensar em estratégias desse tipo, mas, no meu caso, cheguei à conclusão de que isso era uma forma de procrastinar meus estudos.

Em que ordem você acha aconselhável fazer as tarefas da prova de inglês de segunda fase?

Decidi, em algum momento da preparação, não começar pela composition, pois é uma tarefa em que se pode “gastar” muito tempo sem que nos demos conta. Eu sou o tipo de pessoa que quer ficar modificando muito para chegar ao texto perfeito e, começando pela composition, eu tiraria tempo de outras tarefas. Assim, eu começava por qualquer uma das outras tarefas (a que me parecesse mais “fácil”) e deixava a composition para o fim.

Quanto tempo você acha aconselhável reservar para cada tarefa da prova de inglês de segunda fase?

Agora a prova tem 5h de duração, mas, ainda assim, sempre tentava terminar em 4h e ter tempo para revisar. Revisar é extremamente importante. Então eu diria em torno de 40min para a tradução A, 1h para a tradução B, 1h para o summary e 1:20 para a composition. Com essa 1h “extra”, eu sugeriria dar mais tempo à composition e dedicar o tempo restante a alguma das tarefas que seja particularmente difícil no ano em que o candidato realizar a prova.

Como era seu processo para cada tarefa da prova de inglês de segunda fase?

Nas traduções, eu lia com atenção cada período e, rapidamente, o parágrafo. A partir daí, começava a traduzir. Sempre que necessário, voltava a ler o período e o parágrafo, para que a tradução não ficasse muito truncada. Quando eu não conhecia a palavra, fazia uma paráfrase ou adivinhava. Deixar em branco ou errar uma palavra vai levar à perda da mesma quantidade de pontos, então adivinhar ainda te dá a chance de eventualmente ganhar um ponto.

No summary, eu lia extremamente rápido o texto inteiro e anotava palavras-chave. Apenas assim é possível captar qual é o foco do texto. A partir daí, eu resumia parágrafo por parágrafo.

Na composition, eu fazia um brainstorm e buscava formular uma tese e três argumentos principais que a sustentassem. A tese estaria na introdução e os três argumentos resumidos no último período da introdução. Esses três argumentos eram transformados em tópicos frasais de cada parágrafo do corpo de texto. Cada argumento tinha um exemplo ilustrativo. Embora fosse mais seguro fazer um rascunho básico (especialmente agora que há tempo suficiente pra isso), eu não fazia pela razão que já mencionei: eu iria querer mudar muito o tempo todo e não terminaria a prova. Em 2016, eu cheguei até mesmo a riscar a introdução e começar de novo duas vezes na folha de respostas. Imagina se eu fizesse rascunho?

Alguma dica de ouro para os candidatos?

Repetir, revisar e repetir! É muito comum ver os candidatos reprovados dizendo que precisam “aprofundar”, “melhorar os conhecimentos” e afins. Mas a alma de qualquer concurso é dominar o básico. Isso só se alcança com repetição e revisão.

Também daria uma dica mais “autoajuda”: conheça suas limitações. Eu só comecei a ser mais produtiva e eficiente quando busquei conhecer e aceitar minhas limitações. Um exemplo? Embora estivesse trabalhando apenas esporadicamente desde março de 2017, eu não conseguia mais me forçar a estudar mais de 6-7 horas líquidas por dia. Em algum momento, forcei-me a aceitar isso. Não foi fácil, mas foi necessário. E cá estou no IRBr.

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TRANSLATION

Em seu livro Escola de Tradutores, Paulo Rónai define o fenômeno da polissemia como uma “enfermidade da linguagem (que lhe enfraquece a lógica, enquanto a torna apta à expressão poética)”. Rónai fala especificamente sobre a dificuldade de lidar com a polissemia na tradução técnica e dá como exemplo o caso do vocábulo “resistência”, no campo da eletrotécnica: ele será traduzido para a língua inglesa como resistance “quando se tratar da propriedade que têm os condutores elétricos de se opor à passagem de corrente elétrica”, mas como resistor “em se tratando de peça má condutora encaixada num circuito”.

Na tarefa de tradução para a língua portuguesa do CACD 2016, alguns dos erros dos candidatos podem ser atribuídos à polissemia (não percebida) de alguns vocábulos usados no texto fonte. Destaco, neste post, dois casos — as traduções de noise e de language — para que possamos iniciar a reflexão sobre esse tema da polissemia nas tarefas de tradução.

1. Noise

No CACD 2016, o texto fonte da tarefa Translation Part A dizia: “Simply by making noises with our mouths, we can reliably cause precise new combinations of ideas to arise in each other’s minds“. Os candidatos que traduziram noise como “barulho” foram apenados. Mas noise não quer dizer “barulho”?

“Barulho” é um dos sentidos de noise, que é uma palavra polissêmica. Mas, naquele contexto, “barulho” não fazia sentido. Na definição do Dicionário Houaiss, “barulho” é “som estrepitoso; rumor; estrondo”; sabemos, pelo contexto, que não é disso que o autor está falando. Após a interposição de recursos, essa foi, justamente, a justificativa do examinador para o indeferimento: “‘barulho’ é um som estrepitoso, o que não se coaduna com o sentido do original.”

O sentido que se depreende do texto é noise como sound; naquele contexto, noise poderia ser traduzido, portanto, como “som” ou “ruído” (no sentido de “som confuso, indistinto”).

2. Language

O mesmo texto fonte também dizia: “That ability is language.” Os candidatos que traduziram language, aqui, como “língua” foram apenados.

É claro que uma das acepções de language é “the particular form of words and speech that is used by the people of a country, area or social group“, e, nesse sentido, o vocábulo pode ser traduzido como “língua, idioma”.

Entretanto, o sentido, nesse trecho do texto, não é esse, mas sim de “the method o human communication using spoken or written words“. Nesse sentido, language não quer dizer “língua”, mas sim “linguagem”. A capacidade (“ability“) é a linguagem, não a língua. Na definição do Houaiss, linguagem é “a capacidade inata da espécie humana de aprender e comunicar-se por meio de uma língua (‘sistema’)”.

Contudo, note que, no fim do texto, quando o autor escreve “but what is truly arresting about our kind is better captured in the story of the Tower of Babel, in which humanity, speaking a single language, came so close to reaching heaven that God himself felt threatened“, o sentido de language, aqui, é de “língua, idioma”.

**********

Pode-se argumentar que, em um sistema semiótico ideal, cada palavra corresponderia a um sentido — ou seja, cada significante corresponderia a apenas um significado. Nos sistemas reais, entretanto, a polissemia é um fenômeno frequentemente observado. Como o próprio Dicionário Houaiss ressalta, “a polissemia é um fenômeno comum nas línguas naturais, são raras as palavras que não a apresentam”.

Alguns autores, inclusive, argumentam que as palavras não têm sentidos mais sim “sentidos em potencial” (meaning potential): as palavras não significam; elas podem significar. E o que tranforma um meaning potential em meaning é o contexto. Assim, é no contexto que o sentido se realiza, se concretiza.

Traduzindo essa discussão mais teórica e abstrata para nossas preocupações mais práticas com a prova: como podemos identificar e desambiguizar as palavras polissêmicas? A chave, aqui, é não traduzir cada palavra isoladamente, mas sempre tendo em mente o texto no qual ela está inserida!

  • Quando palavras polissêmicas são tiradas do contexto, é normal presumir que seu sentido seja o mais prototípico. Mas isso pode resultar em um erro de interpretação de texto e de tradução. Por exemplo, se eu perguntasse como você traduziria a palavra start, você provavelmente diria “começar, iniciar”. Entretanto, na expressão start the car, o verbo não tem o sentido de “make something begin to happen“, mas sim de “switch on a machine or engine“. Dessa forma, em start the carstart não significa “começar, inciar”.
  • É só no contexto que podemos avaliar a classe da palavra, o que também contribui para a construção do sentido. Por exemplo, se eu perguntasse como você traduziria a palavra but, é bem provável que você diria “mas”, presumindo que eu estivesse fazendo referência a but como conjunção; mas but também pode ser advérbio (“We can but hope that things will improve“) e até preposição (“There’s been nothing but trouble since he came“). Em nenhum desses dois casos but seria traduzido como “mas”.
  • As combinações de palavras no contexto selecionam e reforçam seus sentidos. Quando eu falo de um old man, fica claro que old é uma referência a sua idade; quando eu falo de um old friend, a referência costuma ser não à idade do amigo, mas a uma amizade que conservo há muito tempo.

Dessa forma, é só no contexto que podemos entender o sentido de uma palavra polissêmica. Nas palavras de Goran Schmidt, “If we accept the primacy of construction over its parts, we could avoid polysemy at the level of words”.

Dada a frequência do fenômeno da polissemia, é essencial ter muita atenção ao contexto nas tarefas de tradução. Durante o ato tradutório, procure certificar-se de que você entende o sentido das palavras no texto fonte; se algo soa estranho, não culpe o autor do texto: pode ser que você esteja pensando apenas no sentido mais prototípico de uma palavra que também tem sentidos subsidiários.

Além de atenção durante o ato tradutório, é essencial fazer algumas revisões do texto de chegada. E agora que temos cinco horas de prova discursiva, proofreading ficou mais factível ainda! O que sempre sugiro a meus alunos é um proofreading em duas etapas:

Cheers!

 

Bibliografia

Dicionário Houaiss Eletrônico da Língua Portuguesa (2009)

Macmillan Dictionary

RÓNAI, Paulo. Escola de Tradutores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

SCHMIDT, Goran. Polysemy in Translation: selecting the right sense.

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TPS

Chego, finalmente, ao último texto. Deixei o texto 4 por último porque me pareceu o mais difícil — aliás, não só o texto, mas a forma como os itens foram elaborados. Na verdade, o fato de o texto ser adaptado dificultou bastante sua compreensão: a versão completa, sem os cortes feitos pela banca, me parece mais clara.

Questão 40. Decide whether the folowing statements are right (C) or wrong (E) according to text IV.

1. The author criticizes Krapp’s argument that exemplars of transplanted languages or dialects such as Acadian French are more archaic than the original ones, which continued evolving in their home countries.

ERRADO. Note que essa não é a teoria de Krapp; na verdade, ele argumenta contra aqueles que argumentam isso. É o que diz a passagem “George Philip Krapp, among others, makes a compelling argment against the theory that a transplanted dialect or language suddenly has its linguistic development arrested”. Note também que o fato de a autora do texto qualificar esse argumento de Krapp como compelling é uma forma de ela mostrar adesão ao discurso de Krapp (e não de oposição a ele, como afirma o item).

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

2. The author asserts that the early dialect of colonial Americans was not influenced and shaped by large waves of immigrants from many origins.

Se com “early dialect” o item faz referência a “the founding generation of settlers”, o item está certo. O texto afirma que “but in order for linguistic innovation to really take root, you need a bunch of colonial babies. The founding generation of settlers wasn’t immediately followed by a huge influx of immigrants with other dialects and languages until an American koine was already mostly established […]” (l.44-48).

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. According to the text, the fact that social origin was not as easy to identify based on the koine of eighteenth-century Americans as was the case with contemporary Britons reflected the early American colonies’ egalitarian ethos.

O item parece extrapolar o que diz o texto. A autora até afirma que “in colonial America speakers of all classes and regions might have used these forms, dilluting them as signs of social status” (l.15-17), mas isso não necessariamente significa que o fato de que era difícil de identificar a origem social dos americanos com base em sua língua comum refletia um ethos igualitário. Não me parece que o autor defende que as mudanças linguísticas tinham como objetivo de diluir as diferenças sociais, de tornar a sociedade mais igualitária; as mudanças, conforme descritas no texto, ocorrem independentes de um ethos: “in the context of a linguistic melting pot, a kind of linguistic leveling occurs, and a common mode of speech, or koine, emerges” (l.34-36).

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

4. It can be said from the text that to British ears, contemporary American accents belie declining grammar standards in America as compared to Colonial times.

Difícil entender esse item: estamos falando de accent, um fenômeno fonético, ou de grammar standards?

Quando fala do passado, a autora afirma que muitos descreviam o dialeto americano do início do século 18 como bem próximo daquilo que era considerado a norma culta britânica da sociedade londrina, mesmo com os diferentes acentos/sotaques (l.11-14); ou seja, “early Americans spoke with a standard dialect all their own that was often met with approval by English observers” (l.3-5). Quando fala sobre os dias atuais, a autora apenas afirma que alguns sotaques americanos não têm o mesmo tipo de aprovação dos observadores ingleses que tinham no passado (l.5-6).

O item parece estar falando dos accents, já que menciona “to British ears“, mas não me parece ser possível relacionar isso a “grammar standards” com base no texto.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Questão 41. In text IV, without altering the general meaning of the sentence, “pinpoint” (l.10) could be replaced by (mark right — C — or wrong — E)

1. convey

ERRADO. Convey não manteria o sentido geral do período.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

2. ascertain

CERTO. Não encontrei como sinônimos no Random House Roget’s Thesaurus nem no Merriam-Webster’s Online Dictionary, mas a questão não diz que precisam ser sinônimos, mas sim que não deve ser alterado o sentido geral do período. Ascertain cabe naquele contexto.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. determine

CERTO. É inclusive sinônimo de pinpoint.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

4. compare

ERRADO. Compare não manteria o sentido geral do período.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Questão 42. Considering the grammatical and semantic aspects of text IV, decide whether the following items are right (C) or wrong (E).

1. The expression “hold their tongue with” (l.54 and 55) could be replaced by uphold their dialect against without altering the meaning of the sentence.

Me parece uma interpretação possível do uso da expressão hold your tongue nesse contexto específico.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

2. The expression “a bunch of” (l.45) could be replaced by a cluster of without altering the meaning of the passage.

CERTO. Bunchcluster são inclusive considerados sinônimos.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. The word “assimilated” (l.52) could be correctly replaced by blended, without altering the meaning of the passage.

CERTO. Os sentidos são bem próximos nessa passagem.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

4. The adjective “compelling” (l.25) could be replaced by thorough in this particular context.

O sentido de compelling remete a persuasão, enquanto o sentido de thorough remete a completude; um argumento pode ser thorough sem ser compelling e vice versa. Quando a autora descreve o argumento como compelling, ela está dizendo que está convencida por esse argumento — esse sentido não seria mantido se o adjetivo fosse substituído por thorough.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Cheers!

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TPS

Questão 43. Considering the grammatical and semantic aspects of text V, decide whether the following items are right (C) or wrong (E).

1. The word “enjoined” (l.27) cannot be replaced by endorsed in that particular context.

Inicialmente, é preciso ter muita atenção, pois o item está na negativa (“cannot“). Além disso, é preciso avaliar bem o sentido de enjoin no texto, já que esse verbo é um contrônimo, ou seja, em sua polissemia, engloba sentidos antagônicos: enjoin pode querer dizer “to prescribe authoritatively and with emphasis”, mas também “to prohibit, forbid” (Oxford English Dictionary).

No texto, o sentido é o primeiro. Sabemos disso tanto porque o autor está discutindo as causas da credibilidade de uma crença (ou seja, pelo contexto) quanto pela estrutura sintática que completa o sentido do verbo — enjoin com o segundo sentido teria como complemento someone from (doing) something, o que não é o caso.

Qualquer que seja o sentido de enjoin aqui, endorse não é usualmente considerado seu sinônimo (Cf. Random House Roget’s Thesaurus Merriam-Webster’s Online Thesaurus). Minha única preocupação, entretanto, é que o item fala “in this particular context” e não diz nada sobre a necessidade de serem sinônimos ou de o sentido exato ser mantido. Endorsed faz sentido no texto, mas não é sinônimo de enjoin. Acredito que o CESPE vai considerar o item errado.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

2. The expression “on a par” (l.20 and 21) means competing.

ERRADO. On a par with quer dizer “em pé de igualdade com” (Dicionário Porto de Inglês – Português).

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

3. The text asserts that facts should be judged to be the sole standard against which to define beliefs.

ERRADO. O texto afirma justamente o contrário (l.31-37).

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

4. The word “contingent” (l.34) is synonymoys with necessary.

ERRADO. Veja aqui o sentido de contingent.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Cheers!

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TPS

Questão 39. Decide whether the statements below, concerning the ideas and the vocabulary of text III, are right (C) or wrong (E).

1. The contrast between the images created by the expressions “monochrome, middle-aged and male” and “silk scarves and coloured jackets” functions as a rhetorical resource which reinforces the idea that French diplomacy is becoming a more feminine realm.

CERTO. O que afirma o item é confirmado inclusive por aquilo que está escrito após os dois pontos no texto: “in that year, nearly a third of the ambassadorial corps was made up of women”. A figura retórica utilizada é a metonímia.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

2. In spite of some passages which might be taken as ironic, it is correct to conclude that the text considers the changes in French diplomacy to be positive.

CERTO. Apesar de o autor afirmar que não é muita coisa que muda com uma embaixadora, ele também afirma, na sequência, que “perhaps most importantly, a less male representation projects a less fusty national image at a time when soft power counts for ever more”. Assim, a mudança parece ser considerada de forma positiva.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. According to the text, the foreign minister Laurent Fabius was appointed immediately after Mrs. Alliot-Marie’s term.

ERRADO. O autor fala de “Laurent Fabius, the foreign minister, whose predecessor but one was a woman, Michèle Alliot-Marie”.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

4. The mentioning of “fine cuisine” (l.3) suggests that the French ambassadors were in Paris also to learn about French gastronomy, due to its relevance in French culture.

No item, “to learn about French gastronomy” passa uma ideia de propósito: um dos propósitos da ida dos embaixadores a Paris seria esse de aprender sobre a gastronomia francesa. Contudo, o texto não afirma que esse seria um dos propósitos da convocação dos embaixadores; “fine cuisine” pode ser simplesmente a experiência de comer em restaurantes requintados, sem o propósito de aprender algo. Não acredito que essa inferência sugerida pelo item possa ser feita com base no texto, nem em termos lógicos, nem em termos semânticos, nem em termos pragmáticos (Cf. FIORIN, José Luiz. São Paulo: Contexto, 2017, p. 31-45).

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Cheers!

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TPS

Questão 37. Considering the ideas and the vocabulary of text II, decide whether the statements below are right (C) or wrong (E).

1. It can be correctly inferred that, when it came to hiring, the Foreign Office had a clear preference for bright young people.

ERRADO. O texto não afirma nada que pudesse levar a essa inferência. É claro que o autor do texto, por ter iniciado sua carreira aos 22 anos de idade, pode ser considerado young, mas isso não permite a inferência de que a preferência era por jovens em geral. Além disso, nada é dito sobre como as três etapas do processo de seleção eram conduzidas e se isso permitia que o Foreign Office contratasse como preferia.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

2. After all stages of the Civil and Diplomatic Service entrance exams, the number of candidates admitted was around 20.

CERTO. O texto afirma que “Only a score or so survived the final stage to be admitted to the Foreign Office”.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. With the expression “And that was that” (l. 10 and 11), the author reinforces the idea indicated by “the lack of formal preparation for the job” (l.2).

CERTO. Esse é o sentido da expressão no contexto: o autor passou por treinamento durante cerca de um mês e, logo depois, passou a ser responsável pelos países africanos francófonos e pela Libéria. Essa foi toda a preparação formal que recebeu para suas funções.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

4. The word “genial” (l.15) means unusually intelligent.

ERRADO. De acordo com o Guia Prático de Tradução Inglesa, de Agenor Soares dos Santos, genial não é “genial”, mas sim “agradável, jovial, alegre, bondoso, simpático”. Não confundir com o adjetivo genius.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Questão 38. Decide whether the statements below, which concern the ideas of text II and the vocabulary used in it, are right (C) or wrong (E).

1. From the author’s account, it can be correctly inferred that he was expected to translate from French to English and vice versa, as part of his job as a diplomat.

CERTO. O autor afirma que “I was there to interpret between English and French”.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

2. The word “unsparingly” (l.13) can be correctly replaced by unmercifully, without this changing the meaning of the text.

CERTO. O sentido de unsparing é o mesmo de unmerciful no contexto.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. The fact that the author didn’t know the meaning of the word “roselle” and translated it as “jute” was prejudicial to British Minister.

ERRADO. Depois da reunião, o autor entrou em contato com um amigo francês para perguntar sobre o sentido da palavra “roselle“. O amigo, no dia seguinte, disse ao autor que a palavra podia ser usada para fazer referência à fibra da juta. Assim, a tradução feita pelo autor não prejudicou o ministro britânico.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

4. The passage “a wet-behind-the-ears but fully functioning British diplomat” (l.12) indicates that the author’s inexperience didn’t prevent him from getting a position of responsibility in the Foreign Office. 

CERTO. “Wet behind the ears” passa essa ideia mesmo de inexperiência, e “fully functioning” de fato faz referência, naquele contexto, a sua responsabilidade, como diplomata, pelos países africanos francófonos e pela Libéria.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

Cheers!

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TPS

Conforme tenho feito nos últimos anos, publicarei uma série de posts com comentários sobre a prova de inglês do TPS 2017. É importante lembrar que essas são minhas primeiras impressões sobre a prova e que elas podem mudar caso alunos e/ou leitores me chamem a atenção para informações que podem ter passado despercebidas – por isso, fique à vontade para comentar e contribuir! 🙂 É possível que eu adicione comentários aos posts nos próximos dias, principalmente após a publicação do gabarito preliminar e do gabarito definitivo.

Inicio os comentários sobre a prova de inglês do TPS 2017 pelo Text I.

Questão 35. Decide whether the following statements are right (C) or wrong (E) according to text I.

1. The woman mentioned in the first paragraph didn’t expect the author to reveal his true opinions.

CERTO. Sabemos que o autor expressou “his true opinions” porque o texto fala que “I had actually given straight answers” (l.6) e sabemos que a mulher não esperava isso pelo uso da palavra “astonishment” (l.5).

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

2.  It can be correctly inferred from the text that there tends to be presently more female diplomats, as well as diplomats with more diverse social backgrounds, than in 1966.

CERTO. O autor do texto afirma que “Today, the recruitment pool is vastly bigger in every way”. A inferência, portanto, pode ser feita.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

3. It can be correctly concluded from the text that the recruitment methods adopted in the past have fuelled suspicion against diplomats and created a fallacious idea about their work.

O texto não fala exatamente sobre “recruitment methods“, ou seja, não fala sobre como os diplomatas eram recrutados. Ele fala sobre recruitment pools: durante séculos, os diplomatas eram membros da aristocracia e das classes mais altas (l.12-13); em 1966, o recrutamento já era feito de forma mais meritocrática, mas ainda favorecia homens que estudavam em algumas universidades de prestígio (l.14-16). Hoje, há maior variedade no recruitment pool, mas os mitos associados ao antigo pool, mais restrito e elitizado, persistem (l.16-29). Se o recruitment pool puder ser considerado um recruitment method, a resposta está certa; se não, está errada.

Outra observação é que, no segundo parágrafo do texto, o qual trata especificamente do recrutamento, o autor não fala sobre a imagem que se faz do trabalho do diplomata em si, como afirma o item (“their work“), mas mais sobre seu estilo de vida (“a diplomat clad in pinstripes, quaffing champagne, and leading the good life in a magnificent embassy”). Mas se isso for visto como parte de seu trabalho, o item está certo.

Acredito que o CESPE favorecerá uma compreensão mais ampla e dará o item como CERTO.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

4. For the author, the bad reputation diplomacy holds has to do with the frequent international negotiations in which diplomats deal with foreign officials.

ERRADO. O texto fala que, hodiernamente, a diplomacia é vista como bajulação dos governos de outros países (l. 10), mas isso não quer dizer que sua má reputação está relacionada a frequentes negociações internacionais nas quais os diplomatas lidam com representantes de outros países. O problema não é a negociação internacional, mas sim a percepção de que a diplomacia está relacionada a “appeasement” e a “kowtowing“.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

Questão 36. Considering the grammatical and semantic aspects of text I, decide whether the following items are right (C) or wrong (E).

1. The recruitment policy of the British diplomatic service was designed and planned by elite academics and university intellectuals.

ERRADO. O texto não diz nada sobre quem era responsável pelo planejamento da política de recrutamento britânica. Note que “by elite academics and university intellectuals” introduz o agente da estrutura passiva “was designed and planned”.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

2. The words “clad” (l.18) and “quaffing” (l. 19) could be correctly replaced by dressed and sipping without this altering the meaning of the sentence, although this substitution would make the text less humorous. 

Clad é, de fato, sinônimo de dressed, mas quaff não quer dizer o mesmo que sip. É claro que ambos os verbos estão no mesmo campo semântico do verbo drink, mas note que sip quer dizer “to drink in very small draughts“, enquanto quaff quer dizer “to drink copiously or in a large draught” (Oxford English Dictionary). Existe aqui uma pequena diferença de sentido. Se pensarmos que, de qualquer forma, não existe sinonímia absoluta, a questão estará certa; por outro lado, se pensarmos que, naquele contexto, a imagem que se faz do diplomata é um pouco diferente (no texto, o diplomata dá goladas; no item, ele beberica), ela estará errada.

A substituição parece de fato deixar o texto menos humoroso (clad quaff são palavras usadas em textos mais literários; naquele texto, não literário, dão um tom mais pomposo à passagem — e, dado o contexto, mais irônico com relação ao que o autor se refere como “os antigos mitos”). O problema é se a mudança é apenas no tom, ou também no sentido da passagem. Acredito que o CESPE optará pelo primeiro entendimento.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

3. There would be no change in the meaning of the passage from “Often” (l.2) to “duplicity” (l. 4) if it were replaced by Even though it is often confused with espionage, which is its illegitimate cousin, diplomacy has been linked with misbehaviour and duplicity for centuries

ERRADO. Clandestine não quer dizer o mesmo que illegitimate, e deviousness não quer dizer o mesmo que misbehaviour.

[O gabarito preliminar deu o item como ERRADO.]

4. The excerpt “that you get from diplomats” (l. 7 and 8) could be correctly replaced by which one gets from diplomats without this changing the meaning of the text.

CERTO. O pronome relativo that pode ser substituído por which, e you, no texto, refere-se a pessoas em geral, assim como one.

[O gabarito preliminar deu o item como CERTO.]

Cheers!

Há dois dias, foi publicado o edital do CACD 2017, e há diversas mudanças no que diz respeito às provas de inglês se comparado com editais de outros anos. Faço aqui uma breve análise dessas mudanças e de suas implicações para aqueles que se preparam para mais uma bateria de provas!

A. Prova objetiva

A prova continua tendo 73 questões no total, e o formato continua sendo questões de certo ou errado. Contudo, o número de questões de língua inglesa foi reduzido de 13 para 9. Atente para essa mudança quando estiver fazendo simulados de primeira fase de língua inglesa: se o candidato tem, em média, um pouco menos de cinco minutos para resolver cada questão (são 73 questões em 6 horas de prova), tente concluir cada simulado de língua inglesa em até 45 minutos. É claro que o tempo de resolução da prova depende muito da extensão dos textos que serão selecionados e do nível de complexidade desses textos e das questões, mas esse limite de tempo sugerido é uma baliza importante a ser levada em conta para que você não seja prejudicado nas provas das outras disciplinas por falta de tempo para completá-las.

B. Prova escrita

B.1. Tarefas

A prova escrita de língua inglesa continua sendo composta por uma redação (50 pontos), um resumo (15 pontos), uma tradução para o português (20 pontos) e uma versão para o inglês (15 pontos). A boa notícia é que agora os candidatos têm cinco horas (e não mais quatro) para resolvê-la!

Faça uso desse tempo “extra” com sabedoria: se você já conseguia completar os simulados escritos em quatro horas, use esse tempo a mais para fazer mais de um proofreading de cada uma das tarefas. Na redação, por exemplo, se você tem dificuldade com o uso do artigo definido, faça um proofreading só avaliando a necessidade de uso desse artigo em cada noun phrase que você desenvolver; na tradução para o português, faça o proofreading uma primeira vez comparando seu texto ao texto-fonte (para avaliar a fidelidade) e outra vez com enfoque apenas no texto que você produziu (para avaliar a gramaticalidade e a naturalidade no idioma-alvo). Proofreading não é algo para ser feito se der tempo: é parte essencial da realização de cada uma das tarefas.

B.2. Segunda Fase

A prova escrita de língua inglesa agora é realizada na segunda fase do concurso, assim como a prova de língua portuguesa, passando a ser uma prova não só classificatória, mas também eliminatória. Para ser aprovado na segunda fase do concurso, o candidato deve obter o mínimo de 60 pontos na prova de língua portuguesa e, agora, o mínimo de 50 pontos na prova de língua inglesa também.

Não há dúvidas de que essa mudança vai deixar de fora da terceira fase muitos dos candidatos que, ainda que tenham bons conhecimentos de língua inglesa, não se prepararam para a prova escrita do idioma, deixando assim de praticar as habilidades específicas cobradas em cada uma das tarefas e, em última instância, de conhecer um pouco mais sobre a “jurisprudência cespeana” (no caso, como a banca de língua inglesa costuma avaliar certas estruturas gramaticais e escolhas lexicais, por exemplo).

Entretanto, se você já vem estudando para a prova escrita de inglês do concurso com disciplina e organização, não se esqueça de que, além de eliminatória, a prova é classificatória: a estratégia de preparar-se apenas para as tarefas de redação e resumo pode ser suficiente para evitar a eliminação, mas deixar as tarefas de tradução e versão a cargo da sorte me parece muito arriscado em um concurso com apenas 22 vagas para a ampla concorrência. (Leia mais sobre isso aqui e aqui.) Você não quer apenas evitar a eliminação: você quer passar no concurso! Assim, não pense apenas no caráter eliminatório da prova.

B.3. Critérios de Correção

Em um primeiro momento, fiquei muito contente quando vi aquele quadro com os critérios de correção detalhados no edital. Mas, analisando o quadro com mais atenção, acredito que é preciso ao menos ter em mente que algumas das formulações não são exatamente claras – e pensar em formas objetivas de lidar com essa falta de clareza.

Redação

Até o ano passado, os 50 pontos da Redação eram distribuídos em 20 de organização, 20 de precisão e 10 de qualidade de linguagem. Agora, temos 25 pontos atribuídos a organização e os outros 25 atribuídos a precisão e linguagem. Imagino que a pontuação de organização continue sendo uma nota global e que a de precisão e linguagem continue sendo descontada ponto a ponto conforme os erros do candidato, mas isso não está declarado no edital.

Acho relevante destacar que a legibilidade agora é declaradamente um critério de avaliação. Cuidado com a aparência final do seu texto devido ao número e à extensão das rasuras. Se julgar pertinente, dedique parte dessa uma hora “extra” de prova para produzir um rascunho mais “limpo” da redação.

Além disso, os critérios “capacidade de argumentação” e “capacidade de análise e reflexão” deixam claro, mais do que nunca, que o gênero textual esperado é argumentativo, não descritivo. Certifique-se de que você tem uma tese clara a respeito do tema proposto e de que ela está claramente declarada na introdução de seu texto, o qual deve ser desenvolvido com o objetivo não de descrever o tema, mas de corroborar sua tese sobre o tema. A esse respeito, faço minhas as palavras de Thomas S. Kane, no The Oxford Essential Guide to Writing:

“Don’t be afraid to express your own opinions and feelings. You are a vital part of the subject. No matter what the topic, you are really writing about how you understand it, how you feel about it. Good writing has personality. Readers enjoy sensing a mind at work, hearing a clear voice, responding to an unusual sensibility. […]. Interest lies not so much in a topic as in what a writer has made of it.”

Tradução e Versão

Minha primeira preocupação é o critério “fidelidade ao estilo do texto original”. Imagino que “estilo”, aqui, tenha o sentido de “escolha de palavras”; ou seja, continua sendo importante que o candidato atente não apenas à mensagem do texto, mas também às palavras escolhidas para passar essa mensagem — mas não confunda fidelidade com literalidade. Minha segunda preocupação é como serão distribuídos esses cinco pontos: até o ano passado, problemas com traduções “infiéis” eram apenados com -1 ponto a cada erro, mas será que agora esses cinco pontos serão uma nota global? Essa é a mesma preocupação que tenho com o critério “correção gramatical”: o candidato já perdia pontos quando, no texto de chegada, cometia erros na língua de chegada, mas agora continua a valer essa prática de -1 ponto para cada erro? Ou estamos falando de notas globais?

Resumo

Até pelo menos o CACD 2015, o resumo, que também valia 15 pontos, era avaliado nos critérios use of English (3 pontos, uma nota global que avaliava gramática e léxico) e summary (12 pontos, outra nota global que avaliava capacidade de concisão, organização do texto etc.) — leia mais aqui. Já no CACD 2017, o peso passa a estar na precisão gramatical e lexical: são 10 pontos atribuídos a “correção gramatical e propriedade da linguagem” e 5 pontos para “capacidade de síntese e concisão”. Assim como nas traduções, a dúvida é se a nota de correção gramatical e propriedade de linguagem será global, como antes, ou se será descontada ponto a ponto conforme o candidato for cometendo erros.

**********

Qualquer que seja sua estratégia de estudos para as próximas semanas, no que diz respeito à língua inglesa, é fundamental que você não se prepare apenas para a primeira fase, já que não há tempo hábil de desenvolver as habilidades testadas na prova escrita de inglês nas poucas semanas que separam a primeira fase da segunda fase. Além disso, ao preparar-se para a segunda fase, certifique-se de que seu cursinho ou professor particular faça as correções de seus simulados com base nos novos critérios. É verdade que só saberemos as respostas para os questionamentos que aqui expus após vermos as correções das provas de segunda fase, mas é crucial que você e seu professor considerem as possíveis interpretações desses novos critérios e busquem desenvolver estratégias que possibilitem que você tenha um bom desempenho qualquer que seja a interpretação correta.

Cheers!

Print

A divulgação dos resultados da prova de terceira fase de língua inglesa se aproxima, e muitos me perguntam sobre a interposição de recursos. Após analisar minuciosamente tanto as provas às quais tive acesso ano passado quanto as respostas da banca examinadora a recursos interpostos, escrevo aqui algumas observações e recomendações no que diz respeito à interposição de recursos na tarefa Translation Part A.

  1. Não use qualquer dicionário

Nas tarefas de tradução, a interposição de recursos depende quase que exclusivamente do uso de dicionários: os recursos mais comuns são aqueles em que o candidato tenta demonstrar para a banca examinadora que sua solução de tradução está correta por meio da citação de definições de dicionários monolíngues, de traduções em dicionários bilíngues, de relações de sinonímia etc. Como qualquer outro tipo de recurso, o recurso com base em dicionários precisa ter como respaldo fontes que sejam consideradas authoritative; a autoridade da fonte torna seu argumento no recurso mais irretorquível.

É aconselhável evitar citar como fontes dicionários simplificados dirigidos a um público estrangeiro, pois, nas palavras da própria banca, eles carecem “de sofisticação lexicográfica por ter como público-alvo aprendizes de inglês”. Assim, evitem citar dicionários escolares (ou learner’s dictionaries), versões abridged de grandes dicionários e recursos online como o The Free Dictionary (esse exemplo em particular foi dado pela própria banca em resposta a um recurso).

Para uma lista de dicionários indicados, sugiro dar uma olhada no Guia de Estudos de 2010 aqui.

  1. Não é porque a sua solução de tradução existe em um dicionário que ela está correta

Ao utilizar dicionários bilíngues em seus recursos, cuidado: você pode ter traduzido uma palavra / unidade de tradução do texto fonte exatamente como sugerido por seu dicionário bilíngue, mas isso não significa que aquela tradução esteja correta naquele contexto.

Explico melhor por meio de um exemplo. Na Translation Part A de 2015, o texto começava assim: “It was once the custom for British ambassadors to write a valedictory despatch at the end of their posting”. De todas as provas que analisei, apenas 3% apresentaram soluções de tradução para despatch que foram aceitas pela banca. Em seus recursos, muitos candidatos argumentaram que “a tradução é considerada correta de acordo com o dicionário xxx”. No entanto, despatch não tinha, de fato, o sentido de “despacho” naquele contexto. Copio aqui uma explicação da banca examinadora:

“O contexto apresentado, aqui, é o de um relatório/comunicado de despedida, uma espécie de balanço final de uma carreira diplomática. Não se trata de um despacho ­ carta oficial ou ofício públicos que um ministro envia a outro. O autor, um diplomata, ao se aposentar, relata fatos ­ alguns deles de natureza jocosa, o que seria inadmissível em um despacho, que vivenciou, expressando opiniões pessoais e, por vezes, nada diplomáticas sobre a população dos países onde serviu. Ademais, tal relatório tem livre circulação entre os funcionários do ministério, o que não ocorreria no caso de despachos.”

Portanto, sempre considere se aquela tradução é pertinente para aquele contexto – em termos de sentido, de naturalidade no idioma de chegada, de ser uma série usual, de respeitar o registro do texto fonte etc. É o contexto que define se uma tradução é adequada ou não, não o dicionário. Ainda nas palavras do examinador:

“dicionários simplesmente arrolam algumas possibilidades de significado de um dado vocábulo, independentemente da existência de um determinado contexto. Tal contexto é que definirá se esse ou aquele vocábulo se adéqua à estrutura morfossintática, à precisão semântica, ao uso etc. da frase em questão. Não se trata, portanto, de mero significado mas de significado naquele contexto específico.”

Por isso, no ato tradutório, é importante que você verifique se:

– compreendeu bem o texto: tradução é, antes de qualquer coisa, interpretação de texto. Certifique-se de que você entende o sentido de cada palavra / unidade de tradução naquele contexto. Pense se a palavra é polissêmica. Dentre as provas às quais tive acesso ano passado, 50% dos candidatos traduziram reviews em “capability reviews” como “revisões”. Review é uma palavra polissêmica, e seu sentido não é de “revisão” naquele contexto, mas sim de “avaliação”.

– sua tradução soa natural em português: correção lexical é um critério de avaliação, e fazer uso de séries usuais em português é algo exigido na prova. É preciso ir além do sentido da cada palavra: o produto final é um texto, e o texto deve ser em português, não em “tradutês”. Na prova de 2015, muitos candidatos (46%, na minha amostragem) tiveram dificuldades com a tradução de render em “the ability to render incisive judgment”. A tradução de render para o português dependia muito da tradução do complemento desse verbo (“judgment”). A banca aceitou traduções como “fazer um julgamento” e “elaborar um julgamento”, mas não aceitou formulações como “entregar um julgamento”– ainda que, em outros contextos, render possa ser traduzido como “entregar”.

– seu texto respeita o registro do texto fonte: esse também é um critério de correção. Tenho um aluno que traduziu wit, no texto de 2015, como “esperteza” e foi apenado. Apesar de argumentar que “esperteza” é sinônimo de “perspicácia” e “sagacidade” (outras traduções que foram aceitas para o termo), a banca respondeu que “o registro não se coaduna com a natureza do texto”.

Dessa forma, no seu recurso, não basta alegar que a tradução consta de um bom dicionário: é preciso demonstrar à banca que ela é adequada ao contexto. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio do recurso a outros (con)textos. Tenho um aluno que traduziu, na mesma tarefa, “Whether written with quill” como “Fosse escrito com pena”. Ele foi penalizado (-0,5), como outros candidatos, pelo uso do “com”. Em seu recurso, o candidato alegou que a expressão “com pena” é de uso consagrado na língua portuguesa e citou um trecho que localizou na obra de Machado de Assis. A apenação foi revertida, possivelmente porque o candidato conseguiu demonstrar que a expressão é apropriada (note, também, a autoridade a que recorreu para demonstrar isso).

  1. O recurso à sinonímia *pode* funcionar

Não é raro a banca aceitar alguma solução de tradução após a interposição de um recurso que argumente que a solução utilizada no texto de chegada é sinônima a outras soluções que você já sabe, após ver a correção da prova de colegas, que foram aceitas. Em 2015, um aluno que havia traduzido wit como “sagacidade” foi apenado. Em seu recurso, argumentou que “segundo o Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos, ‘sagacidade’ é sinônimo tanto de ‘inteligência’ quanto de ‘perspicácia’”. O recurso foi deferido.

Esse tipo de recurso, entretanto, não necessariamente garante a devolução do ponto, já que, como bem ressalta a banca na resposta a um recurso,

“num dado contexto, palavras sinônimas podem não desempenhar a mesma função e uma pode se adequada e, seu sinônimo, não. A criação de um universo textual, geralmente, inviabiliza a sinonímia absoluta.”

Tendo isso em mente, em seu recurso, não basta destacar a sinonímia: procure demonstrar que a sua solução de tradução não só tem o mesmo sentido que outras que foram aceitas, mas também soa natural, respeita o registro do texto fonte etc.

  1. Citar outras provas *pode* funcionar

Em 2015, alguns candidatos, após estudarem as correções de suas provas e das provas de colegas, notaram grandes disparidades nas correções, no sentido de que algumas soluções de tradução foram aceitas em algumas provas e, em outras, não.  Solicitando a permissão dos colegas, ao interpor recursos, alguns candidatos mencionaram que a tradução que na prova deles foi considerada errada fora aceita na “prova de número de máscara xxxxx”. Na maior parte dos casos (na minha amostragem, ao menos) em que esse tipo de argumentação foi usado, o recurso foi deferido. Por exemplo, o único caso em que vi a banca aceitar a tradução “caráter” para character após a interposição de recursos foi justamente em um recurso que citava outras provas nas quais “caráter” havia sido aceito.

No entanto, destaco aqui que 1) não é possível determinar se esses recursos foram deferidos por causa da menção dessas disparidades, já que eles não consistiam tão somente nesse argumento e 2) nem todos os recursos que seguiram essa linha argumentativa foram deferidos.

*****

A recomendação mais importante para quem vai receber sua prova corrigida na próxima semana é: interponha recursos. Mesmo que você não tenha nenhuma chance de aprovação este ano. Em primeiro lugar, porque essa é uma oportunidade de aprender a interpor recursos (como redigir seus textos, como funciona a plataforma etc.). Em segundo lugar, porque as respostas aos recursos (quando não consistem apenas em “deferido/indeferido”) nos ensinam muito sobre as visões e as expectativas da banca. Por fim, porque avaliar seu desempenho, aprender com seus erros e com os de outros candidatos e entender as posições da banca são formas muito valiosas de começar a se preparar para o próximo CACD!

Cheers!

 

Icones-sem-marca_Com-papel-Sombra_TRANSLATION

Dando sequência ao post em que discuti a importância de estudar tradução, não só para as tarefas de tradução da prova de inglês na terceira fase do CACD, mas também como método para incrementar a competência na língua inglesa, hoje escrevo sobre algumas formas de dar início a esses estudos sem a instrução de um professor/tradutor.

Publicações bilíngues

Analise o trabalho de outros tradutores! Isso permite que você reflita sobre as decisões que precisam ser tomadas quando se traduz um texto. Comece por textos curtos, sobre temas que você conhece bem, e vá progredindo para textos mais longos e mais complexos em termos semânticos e sintáticos. No site do Itamaraty, por exemplo, há vários textos em português, como notas e discursos, acompanhados de versões para a língua inglesa.

Para os que já buscam maiores desafios, edições bilíngues de obras literárias são uma ótima opção. Existe uma coleção de livros bilíngues da qual gosto muito, por sua praticidade, publicada pela editora Landmark. A coleção tem títulos clássicos como Dracula, Moby Dick e até nosso querido Orlando, de Virginia Woolf. Essas são boas opções para quem quer estudar o par inglês-português. Para quem deseja estudar o par português-inglês, uma ideia é procurar a versão para o inglês de alguma obra em português que você já leu. Eu gostei de ler, mais recentemente, Barren Lives (versão de Vidas Secas, de Graciliano Ramos), Confession of the Lioness (versão de Confissão da Leoa, de Mia Couto) e The Hour of the Star (versão de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector), por exemplo.

Exercícios de tradução

Practice makes perfect! Além de estudar traduções já prontas, é essencial que você também traduza. Uma obra de referência para translators in training é o Vocabulando Pack, de Isa Mara Lando. O Vocabulando Pack consiste em um dicionário de falsos cognatos e de termos mais complicados de traduzir (por sua polissemia, por exemplo) e um workbook com exercícios de tradução. Recomendo o uso da edição mais nova (capa vermelha), pois está atualizada e mais completa.

Outro exercício recomendado é selecionar um trecho curto de uma publicação bilíngue e, antes de ler a tradução já pronta, tentar, você mesmo, traduzi-lo. Depois, compare seu texto de chegada com o texto do tradutor. É claro que seu texto não precisa ser – e muito provavelmente não será – igual ao do tradutor, até porque, normalmente, há diversas possibilidades de tradução para o mesmo texto. Mas compare os dois textos em termos de precisão semântica e sintática, fidelidade ao texto fonte, naturalidade no idioma de chegada etc. É bem possível que, se você estiver fazendo esse trabalho sem o auxílio de um professor/tradutor, alguns erros ou “pontos a melhorar” passem desapercebidos, mas, ainda assim, há muito a se ganhar com esse exercício! Ele pode ser feito com ou sem apoio externo (dicionários, glossários etc.), dependendo do seu objetivo com esse exercício.

Estudos de Tradução

Estudar teoria da tradução não é um requisito essencial para começar a traduzir. Até historicamente, a prática da tradução precede a teorização em centenas de anos. Mas ter algumas noções teóricas ajuda a tornar o ato tradutório algo mais consciente e crítico – e é claro que isso tem impactos extremamente positivos tanto no processo de aquisição de uma língua estrangeira quanto no próprio produto final do processo de tradução. O que não falta é literatura nessa área de conhecimento. Algumas obras indicadas, para quem se interessar, são Oficina de Tradução, de Rosemary Arrojo, Tradução: Teoria e Prática, de John Milton, Introducing Translation Studies, de Jeremy Munday, e Translation and Translating, de Roger T. Bell.

Cheers!