A tarefa da Redação pode ser considerada a mais importante da prova de inglês da Terceira Fase do exame, já que ela, pelo menos desde 2007, vale 50% do valor total da prova. A Redação vale 50 pontos, os quais são distribuídos em correção gramatical (20 pontos), qualidade da linguagem (10 pontos) e organização e desenvolvimento de ideias (20 pontos). Dado o peso que a tarefa tem na prova de Terceira Fase e visto que a organização do texto é um critério de correção, é essencial que o candidato saiba escrever um texto coerente e que, para isso, desenvolva a estrutura de seu texto a partir de uma thesis statement no parágrafo introdutório.

Coerência

Para discutir a importância de se desenvolver a argumentação de uma redação com base em uma thesis statement, partimos aqui da premissa que uma redação é um tipo de texto (em sentido amplo) e que um texto só “faz sentido” quando há continuidade de sentidos entre os conhecimentos que são ativados pelas palavras e expressões (De Beaugrande e Dressler, 1996). Quando o receptor do texto não consegue descobrir essa continuidade de sentidos, o texto “não faz sentido”. Essa continuidade de sentidos é o fundamento principal daquilo que chamamos, em linguística, de coerência. Assim, para que o texto seja coerente, é preciso garantir não só que haja continuidade de sentidos ao longo do texto, mas também que o receptor do texto – no nosso caso, a banca examinadora – seja capaz de descobri-la.

Quando usamos palavras e expressões em um texto, os conceitos a que elas remetem e a relação que visamos estabelecer entre esses conceitos são armazenados em nossa mente. Como a capacidade de armazenamento do cérebro é limitada, a melhor forma de tornar mais eficiente esse armazenamento é por meio da integração desses conceitos e relações (De Beaugrande e Dressler, 1996). O receptor do texto pode ter dificuldade em processar ideias e argumentos não esperados porque ele pode não conseguir processar essas ideias como parte de um padrão integrado – e assim precisa armazenar essas ideias separadamente, o que é mais difícil, até que consiga encontrar algum padrão no qual todas as ideias se acomodem e se relacionem. É desejável, portanto, que ao escrever um texto declaremos, logo em seu início e de forma concisa, quais são as ideias com as quais lidaremos no texto e qual é a relação que pretendemos estabelecer entre elas. Essa declaração pode ser feita no parágrafo introdutório da Redação.

A Introdução e a Thesis Statement

A introdução de uma redação argumentativa é a seção em que inicialmente se escreve, de forma mais geral e brevemente, sobre o tema proposto e depois se declara de que forma esse tema será delimitado e abordado ao longo do texto. Essa delimitação do tema – que de alguma forma é o posicionamento do autor do texto com relação ao tema – logo na introdução do texto cria expectativas no receptor do texto, servindo como um guia para que ele acompanhe sua argumentação. É muito comum que essa condensação da argumentação a ser desenvolvida seja encontrada na última frase da introdução, a qual é chamada de thesis statement.

A thesis statement pode ser definida, de forma simples, como a frase que responde a pergunta que você explora em sua redação. Sim, é preciso ter uma pergunta – mesmo que o examinador não faça uma diretamente -, caso contrário o desenvolvimento da argumentação sobre o tema se dará sem um recorte, o que muito provavelmente levará a um texto sem continuidade de sentidos, ou seja, sem coerência. Assim, para que a Redação seja coerente, não basta que ela seja sobre o tema proposto, mas é importante que ela seja desenvolvida com base em uma pergunta que se faz relacionada ao tema.

Pode ser que essa pergunta já venha proposta como pergunta mesmo. Foi o caso, por exemplo, da tarefa da Redação no CACD 2010:

Tarefa da Redação do CACD 2010, tirada do Guia de Estudos de 2011 (p.57)

Fica claro pela análise da tarefa que o tema da redação é “mudanças nas ações do Conselho de Segurança após o fim da Guerra Fria” e que a pergunta a ser respondida é “de que formas, além da mencionada pelo trecho citado, essas ações mudaram?”. A thesis statement deve ser uma frase concisa, localizada no fim da introdução, que responda essa pergunta – e a partir da qual os parágrafos argumentativos serão desenvolvidos. O candidato que teve sua redação publicada no Guia de Estudos de 2011 escreveu a seguinte introdução:

Introdução da Redação publicada pelo Guia de Estudos de 2011 (p.57)

Vemos nessa introdução, nas duas primeiras frases, alguns comentários mais gerais sobre o tema e depois, na terceira e última frase, uma thesis statement objetiva, específica e concisa. Após ler essa introdução, o receptor esperará ler um texto sobre (i) how peacekeeping operations have been enhanced, (ii) which new topics have been introduced at the top of the agenda of the council e (iii) which stiffer verification mechanisms have been conconcted – sendo que cada uma dessas ideias deve ser desenvolvida em parágrafos distintos (leia aqui essa excelente redação na íntegra para ver como o autor desenvolve a argumentação).

Também pode acontecer de a banca examinadora não propor uma pergunta diretamente – caso no qual é aconselhável que se transforme a proposta em uma pergunta para facilitar a elaboração da thesis statement. Foi o que aconteceu, por exemplo, no CACD 2009:

Tarefa da Redação do CACD 2009, tirada do Guia de Estudos de 2010 (p.63)

O tema da Redação era o debate político contemporâneo sobre a migração. No entanto, a banca não queria qualquer abordagem sobre esse tema. Não se esperava, por exemplo, uma redação que respondesse a pergunta “quais foram as situações históricas que levaram aos atuais problema relativos à migração humana?”. É importante que isso seja ressaltado porque entender qual é a pergunta que deve ser respondida é essencial para o desenvolvimento da thesis statement e, em última instância, da linha de argumentação da redação. E a pergunta que deve ser respondida é a pergunta proposta – direta ou indiretamente – pela banca, sob pena de perda de pontos de organização justificada por comentários como:

A pergunta que deveria ser discutida nesse caso era “what are the issues involved in the contemporary political debate on migration?“. O candidato que teve sua redação publicada no Guia de Estudos escreveu a seguinte introdução:

Introdução da Redação publicada pelo Guia de Estudos de 2010 (p.63)

thesis statement fica clara na última frase da introdução, mostrando para o receptor do texto que são três, na opinião do autor, as principais questões relacionadas ao debate – sendo que cada uma delas será desenvolvida em um parágrafo separado ao longo da redação (leia aqui essa também excelente redação na íntegra para ver como o autor desenvolve a argumentação).

Dessa forma, para que possamos garantir que a banca examinadora consiga acompanhar a continuidade de sentidos da Redação – e assim julgá-la coerente – o parágrafo introdutório da Redação deve, inicialmente, conter breves informações mais gerais sobre o tema, e depois uma frase que condensa a resposta à pergunta proposta, frase a qual deverá ser o ponto de partida do texto argumentativo.

A strong thesis statement

Para certificar-se de que você escreveu uma strong thesis statement, pergunte-se:

– Eu sei qual é o tema da redação? Eu entendi qual é a pergunta proposta dentro desse tema, a qual minha thesis statement deve responder? A minha thesis statement de fato responde essa pergunta?

– A minha thesis statement é objetiva e trata de apenas uma ideia principal? Será que ela não está muito complexa, trazendo mais elementos do que eu serei capaz de explorar em uma redação de cerca de 400 palavras?

– A minha thesis statement está específica o bastante, ou está muito geral? (Evite uma thesis statement que fale sobre advantages, disadvantages, causes, problems, effects etc., porém apenas de forma geral, sem especificar quais advantages, causes etc.)

Cheers!

Referências

De Beaugrande, Robert e Dressler, Wolfgang. Introduction to Text Linguistics. New York, 1996, pp. 84 – 112.

Writing Tutorial Services da Indiana University Bloomington (acessado em 26/10/12).

Seguindo a mesma ideia e o mesmo objetivo do post publicado há duas semanas sobre a Tradução A do CACD 2012, publico aqui uma compilação, a partir dos espelhos da prova de terceira fase deste ano aos quais tive acesso, de algumas opções de tradução do texto da tarefa “Translation – Part B”.

Faço aqui as mesma ressalvas do post anterior. Em primeiro lugar, o texto abaixo é uma montagem com trechos de textos de candidatos. Os números ao lado de algumas palavras/expressões indicam outras traduções que foram aceitas pela banca examinadora (encontre as outras possibilidades abaixo do texto). As letras (desta vez não estou usando asteriscos), por sua vez, chamam atenção para traduções que alguns candidatos sugeriram porém não foram aceitas. Essa lista de traduções aceitas e recusadas não tem a intenção de ser uma lista exaustiva, mas sim apenas exemplificativa.

Em segundo lugar, se você ainda não viu o texto-fonte, sugiro que tente traduzi-lo antes de verificar as traduções aqui sugeridas. É uma forma de você verificar as dificuldades que teria na hora de traduzir o texto e de testar suas habilidades de tradução.

Primeiramente, seguem o exercício e o texto-fonte:

Translate into English the following excerpt adapted from Maurício Carvalho Lyrio’s study “A ascensão da China como potência”.

Historiadores e sinólogos convergem na avaliação de que a civilização chinesa impressiona não apenas por sua longevidade, mas também e principalmente por sua grandeza econômica e política ao longo de boa parte da história, quando comparada a outras civilizações antigas e modernas.

Francis Bacon observou que o mundo seiscentista se recriava pela pólvora, pela prensa e pelo ímã. Omitiu o fato, no entanto, de que todos os três foram descobertos séculos antes na China. 

Malgrado seu status de economia mais pujante do mundo ao longo de três milênios, em 1829, já se vislumbravam os primeiros indícios da queda abrupta que apequenaria a economia chinesa diante das rivais europeias no século seguinte. Passadas sucessivas décadas de declínio relativo, a produção industrial chinesa era, nos anos 1930, menor do que a da Bélgica. Já sua produção de aparelhos e equipamentos não ultrapassava a de um estado do meio-oeste norte-americano.

M. C. Lyrio. A ascensão da China como potência: fundamentos políticos internos. Brasília: FUNAG, 2010, p. 16-8.

Agora, seguem as sugestões de tradução:

Historians and China specialists (1) agree on (a) the assessment that Chinese civilization is impressive (b) not only for (2) its longevity, but also and mainly for (2) power (c) (3) throughout a large part of (d) (4) history, when compared to other ancient (5) and modern civilizations.

Francis Bacon observed (6) that the world in (e) 7) the 17th century was recreated (8) by (9) gunpowder (f) (10), the press, and the magnet. However, he omitted (11) the fact that all three (12) were discovered centuries earlier(13) in China.

Despite its status as (h) the most powerful (i) (14) economy in the world throughout three millennia, in 1829, the first signs (j) (15) of the sudden (16) fall (17) which (18) would belittle (k) (19) the Chinese economy before (20) its European rivals in the following (21) century were already visible (l) (22). After successive decades (23) of relative decline, China’s industrial production (24) was, in the 1930s, smaller than Belgium’s (m). Yet (n) (25), its production of machines (o) and equipment did not surpass (26) that of (p) a mid-west North-American state (27).

(1) specialists on China, Sinologists (2) by, due to (3) greatness (4) a significant part of (5) old (6) noted (7) of (8) recreated itself (9) with, from (10) powder (11) did not mention (12) all three of them (13) before (14) most striking, largest (15) evidence, traces (16) abrupt, big (17) downfall (18) that (19) dwarf, make smaller before (20) comparatively to (21) next (22) noticed (23) several decades, decades in a row (24) output (25) Meanwhile, (sem tradução) (26) did not overcome, was not superior to (27) Mid-Western North-American state, North-American mid-west state.

(a) não foi aceito “converge in” | (b) não foi aceito “amazes” nem “impresses” | (c) não foi aceito “size” | (d) não foi aceito nem “a huge part of” e nem “most part of” | (e) não foi aceito “from” | (f) não foi aceito “explosive material” | (g) não foi aceito “ago” | (h) não foi aceito “of” | (i) não foi aceito nem “most burgeoning” nem “most boosting” | (j) não foi aceito “signals” | (k) não foi aceito “decrease” | (l) não foi aceito “seen” | (m) não foi aceito “the one of Belgium” | (n) não foi aceito “by its turn” | (o) não foi aceito “devices” | (p) não foi aceito “the one of”.

Cheers!

As tarefas da tradução e da versão, na terceira fase do exame, preocupam muitos candidatos, já que elas exigem não só conhecimentos avançados tanto do inglês quanto do português, mas também habilidades avançadas de tradução, algo que normalmente não desenvolvemos quando aprendemos o inglês como língua estrangeira – principalmente em cursos comunicativos. Talvez a maior preocupação de muitos candidatos seja a tênue linha que separa a fidedignidade ao texto fonte e a naturalidade no idioma alvo – os quais são critérios de correção, conforme os Guias de Estudos. Essa é uma preocupação legítima – e inclusive compartilhada por uma comunidade mais ampla de tradutores -, porém não podemos confundir fidedignidade da tradução com literalidade da tradução. A tradução literal é um procedimento de tradução que, quando usado corretamente, de fato permite que uma tradução seja considerada fidedigna, porém ela é apenas um procedimento, dentre tantos outros, e como tal precisa ser usada de forma crítica. O objetivo deste post é fazer um rápido apanhado de procedimentos de tradução, pensando especificamente nos procedimentos conhecidamente aceitos pela banca examinadora do CACD, e assim propor uma reflexão sobre a questão da fidedignidade ao texto fonte.

O último Guia de Estudos do CACD que trouxe uma seção de “bibliografia sugerida” para as provas de inglês foi o de 2010. A bibliografia foi apresentada em cinco subseções: jornais e revistas, dicionários de inglês, dicionários inglês-português e português inglês, gramáticas, e outras fontes. É interessante notar nessa lista que o único material que aborda questões metodológicas e conceituais relacionadas às tarefas da tradução e da versão – e que curiosamente está na subseção de gramática – é o Guia Prático de Tradução Inglesa, escrito pelo diplomata aposentado Agenor Soares dos Santos.

Guia Prático de Tradução Inglesa, edição de 1981

O Guia Prático foi publicado pela primeira vez em 1981 pela editora Cultrix e foi reimpresso diversas vezes e por muitos anos sem qualquer alteração. Apesar de o Guia de Estudos fazer referência específica a essa edição da obra, o Guia Prático foi publicado novamente em 2007, porém em uma edição revisada, ampliada e atualizada, pela editora Campus/Elsevier. O livro ganhou um novo subtítulo (o da primeira edição era comparação semântica e estilística entre os cognatos de sentido diferente em inglês e português e o da nova edição é como evitar as armadilhas das falsas semelhanças), porém o próprio autor adverte, no capítulo de apresentação da nova edição, que o objetivo, as linhas gerais e a área de estudos tratada deste trabalho e do anterior são próximos. O autor esclarece, em termos de diferenças entre os dois trabalhos, que “naquele livro [a edição antiga] não se encontrariam, porém, a abordagem, o volume e a melhor qualidade do material pesquisado e utilizado, o grande número de temas novos e o índice de autores mencionados”.

Guia Prático de Tradução Inglesa, edição de 2007

O livro é sem dúvida uma obra de fôlego e é aparentemente muito referenciado entre tradutores profissionais. Ele é divido em quatro partes, sendo que a segunda delas é o centro da obra: um dicionário de faux amis, ou seja, de cognatos com um ou mais sentidos diferentes na tradução do inglês para o português. São mais de 700 páginas de estudos detalhados do que o autor chama de “cognatos enganadores”, como o que vemos abaixo:

Verbete “dispatch” da edição de 2007

Essa Parte 2 do livro já seria um motivo mais do que suficiente para um candidato que vai fazer o CACD se interessar pela obra, porém me interessa aqui particularmente a Parte 1 do livro. Essa parte é denominada Conceituação e outros estudos, e nela o autor faz diversas considerações de interesse para quem, seja por motivos profissionais seja por outros motivos, está preocupado com questões técnicas e metodológicas no que diz respeito ao ato tradutório. Suponho que isso seja de algum interesse para candidatos que farão o concurso, já que se esse é o único livro da lista de bibliografia sugerida para as provas de inglês que traz reflexões técnico-metodológicas sobre tradução, não parece ser uma hipótese improvável que a visão da banca examinadora sobre as tarefas de tradução e versão esteja, se não totalmente, ao menos em grande medida informada pelos posicionamentos de Agenor Soares dos Santos nessa Parte 1 do livro.

Nesse sentido, o que mais interessa nessa parte do livro é uma seção chamada concepção, objetivos e metodologia do dicionário, e mais especificamente a parte em que ele trata de procedimentos de tradução. A maior referência para o autor nessa seção parece ser a obra Stylistique Comparée du Français et de L’Anglais, de Vinay e Darbelnet, publicada em 1958 (e em 1995 na edição americana Comparative Stylistics of French and English). Trata-se de um clássico da teoria da tradução, o qual teve ampla recepção no Brasil. De acordo com Francis H. Aubert (um dos maiores nomes da tradutologia no Brasil – usarei livremente neste post alguns dos exemplos que ele menciona em um artigo), nessa obra, Vinay e Darbelnet propuseram procedimentos técnicos de tradução que tinham o objetivo inicial de servir como referência didática para o treinamento de tradutores.

Vinay e Darbelnet preveem nesse livro sete métodos de tradução, os quais estão agrupados em duas categorias abrangentes: a tradução direta e a tradução oblíqua. A tradução direta seria a opção do tradutor quando é possível transpor elemento por elemento da língua fonte para a língua alvo, devido à existência de um paralelismo estrutural e metalinguístico entre os dois idiomas. Por sua vez, quando há diferenças estruturais ou metalinguísticas entre as duas línguas e não é possível fazer a transposição sem mexer na estrutura sintática ou mesmo no léxico, temos a tradução oblíqua.

Há três métodos associados à tradução direta: a tradução literal, o empréstimo e o decalque. A tradução literal é o que também chamamos de word-for-word translation; ou seja, quando comparamos dado segmento do texto fonte com o texto alvo, encontramos o mesmo número de palavras, na mesma ordem sintática, empregando as mesmas classes de palavras, e a escolha de sinônimos lexicais. Um exemplo seria traduzir her name is Mary por seu nome é Maria. O empréstimo, por sua vez, é usado quando há alguma lacuna metalinguística (por exemplo uma técnica ou um conceito desconhecido na língua alvo). Nesses casos, o segmento do texto fonte é simplesmente reproduzido no texto alvo – às vezes em itálico, em negrito, entre aspas, ou mesmo sem marcadores. É o caso, por exemplo, de milk shake ou software. Já o decalque é um tipo especial de empréstimo, no qual uma língua empresta uma expressão de outra ou com adaptações ortográficas ou traduzindo literalmente cada um de seus elementos. Podemos pensar como exemplos as palavras sky scraper e abat-jour, do inglês e do francês respectivamente, que em português são traduzidos como arranha-céu e abajur.

Quanto à tradução oblíqua, podemos falar em quatro métodos: transposição, modulação, equivalência e adaptação. A transposição consiste em, de alguma forma, não observar algum critério da tradução literal, rearranjando morfossintaticamente o texto. Isso acontece, por exemplo, quando duas palavras são transformadas em uma (I bought = Comprei), ou uma palavra é expandida em mais de uma unidade lexical (Kindergarten = Jardim de infância), quando há qualquer alteração na ordem das palavras (blue car = carro azul), ou quando há mudança em classes de palavras (should he arrive late = se ele chegar atrasado). Assim, mesmo que os significados sejam traduzidos literalmente, se não há uma literalidade estrutural, trata-se de uma transposição – e é claro que a transposição é em muitos casos obrigatória devido à estrutura morfossintática da língua alvo. A modulação, por sua vez, é a tradução de um segmento de texto com uma mudança evidente da estrutura semântica, porém com a manutenção do significado geral do segmento. É, por exemplo, traduzir it is very difficult como não é fácil ou he acted at once como ele não hesitou. Já as equivalências são casos mais radicais de modulação, muito comuns, por exemplo, para expressões idiomáticas, ditos populares etc. É o caso de traduzir it’s raining cats and dogs por está chovendo canivete ou better lose the saddle than the horse como antes um pássaro na mão que dois voando. Por fim, a adaptação é um procedimento cultural assimilativo, no qual o ato tradutório se satisfaz com o estabelecimento parcial de uma equivalência de sentido. É como, por exemplo, traduzir sheriff como delegado. Se a tradução literal e o empréstimo são as modalidades de tradução que mais guardam proximidade do segmento original com o segmento traduzido, a adaptação está no outro extremo, sendo considerado o limite da tradução.

Feito esse rápido e superficial apanhado dos procedimentos de tradução de Vinay e Darbelnet, é interessante notarmos a leitura que Agenor Soares dos Santos faz deles no Guia Prático. Para ele, “uma das melhores metodologias para a formação do tradutor de inglês” é a transposição. Ele diz que esse é o “mais comum e mais simples procedimento” e que ele mesmo faz uso desse procedimento em mais de 400 verbetes de seu dicionário de cognatos enganadores. O autor também declara fazer uso de modulações, equivalências (especificamente nos casos de clichês, metáforas, frases idiomáticas, provérbios, máximas e ditos), decalques e empréstimos. Assim, os únicos procedimentos que ele não menciona são a tradução literal e a adaptação, porém é possível que esses procedimentos não tenham sido mencionados devido ao escopo “limitado” de seu dicionário – trata-se, afinal, de um dicionário de cognatos enganadores. O que interessa notar é que, diferente do que muitos candidatos possam pensar – ou ter ouvido falar –, a utilização de procedimentos que não a tradução literal não necessariamente leva a uma falta de fidedignidade ao texto fonte. Muito pelo contrário: como vimos, alguns procedimentos como a transposição e a modulação são muitas vezes obrigatórios devido à estrutura morfossintática do idioma alvo e outros se fazem necessários para transpor diferenças metalinguísticas. Isso é o que o único livro sobre tradução no Guia de Estudos do CACD diz, e é o que parece de fato informar os examinadores quando da correção da tradução e da versão.

Dou aqui alguns exemplos de procedimentos de tradução aceitos pela banca examinadora na Tradução A de 2012. Os exemplos são tirados de espelhos aos quais tive acesso após a correção da banca. Começando pela tradução direta, vejamos alguns exemplos de tradução literal:

Exemplo 1

Texto fonte: being snubbed and rebuffed in its quest for trade

Sugestão de tradução aceita: sendo esnobado e contrariado em sua busca por comércio

Exemplo 2

Texto fonte: not their goods, not their ideas, and definitely not their company

Sugestão de tradução aceita: nem seus produtos, nem suas ideias, e definitivamente nem sua companhia

Dentre os espelhos a que tive acesso, encontrei um caso de empréstimo aceito pela banca:

Exemplo 3

Texto fonte: premium Bengal-grown opium

Sugestão de tradução aceita: ópio “premium” plantado em Bengala

Não encontrei casos de decalque – nem aceitos, nem recusados-, mas isso provavelmente se deva ao texto fonte em si, o qual não parece, ao menos em primeira análise, trazer segmentos que pudessem ser objeto de tal procedimento.

Passando à tradução oblíqua, há diversos exemplos de transposição:

Exemplo 4

 Texto fonte: an inglorious episode

Sugestão de tradução aceita: um episódio inglório

 Exemplo 5

Texto fonte: the British gunboats arrived

Sugestão de tradução aceita: os barcos armados britânicos chegaram

Também temos diversos exemplos de modulação:

Exemplo 6

Texto fonte: there was nothing

Sugestão de tradução aceita: não havia nada

Exemplo 7

Texto fonte: a full 14 tonnes of the narcotic

Sugestão de tradução aceita: 14 toneladas completas do narcótico

Cito aqui também alguns exemplos de equivalências:

Exemplo 8

Texto fonte: the crown would make good their losses

Sugestão de tradução aceita: a coroa cobriria as suas perdas

Exemplo 9

Texto fonte: played their part

Sugestão de tradução aceita: fez o seu papel

Não encontrei casos de adaptação – nem aceitos, nem recusados -, mas isso também é provavelmente devido ao texto fonte.

Assim, concluímos que a tradução não precisa – e muitas vezes não deve – ser literal para ser considerada fidedigna. A opção consciente por outros procedimentos de tradução podem, inclusive, tornar o texto traduzido não só mais natural na língua alvo, mas também mais fidedigno ao texto fonte.

Cheers!

A pedido de alguns alunos e leitores do blog, estou compilando, a partir dos espelhos aos quais tive acesso, algumas opções de tradução do texto da tarefa “Translation – Part A” da prova de 2012 aceitas pelo examinador. O objetivo dessa compilação é, de forma específica, verificar quais traduções foram aceitas para algumas palavras e expressões – e quais não foram – e, de forma geral, mostrar que apesar de normalmente haver mais de uma possibilidade de tradução para um item de vocabulário ou mesmo uma estrutura gramatical, o que é esperado pelo examinador é a fidelidade ao texto-fonte (tanto na escolha das palavras quanto no registro) e a naturalidade no idioma-alvo (além, é claro, da gramaticidade).

O texto abaixo é uma montagem com trechos de textos de candidatos. Os números ao lado de algumas palavras/expressões indicam que outras traduções são possíveis (encontre as outras possibilidades abaixo do texto). Os asteriscos, por sua vez, chamam atenção para traduções que muitos candidatos sugeriram porém não foram aceitas. Essa lista de traduções aceitas e recusadas não tem a intenção de ser uma lista exaustiva, mas sim apenas exemplificativa.

Atenção: se você ainda não viu o texto-fonte, sugiro que tente traduzi-lo antes de verificar as traduções aqui sugeridas. É uma forma de você verificar as dificuldades que teria na hora de traduzir o texto e de testar suas habilidades de tradução.

Primeiramente, seguem o exercício e o texto-fonte:

Translate into Portuguese the following excerpt adapted from Isabel Hilton’s review of The Opium Wars by Julia Lovell, published in The Guardian on 11th September 2011.

The Opium Wars were an inglorious episode on both sides. They were triggered by an upstart imperial power being snubbed and rebuffed in its quest for trade: there was nothing, the Chinese loftily told the British emissaries, which China needed or wanted from the West — not their goods, not their ideas, and definitely not their company.

In March 1839, Canton commissioner Lin Zexu, hot from arresting 1,600 opium smokers and confiscating a full 14 tonnes of the narcotic, ordered foreign merchants to hand over their stocks and undertake to bring no more. The British agreed to relinquish over 20,000 chests of premium Bengal-grown opium, assuring merchants all the while that the crown would make good their losses, thus transforming the dispute into an affair of state. Lin reported to Emperor Daoguang that matters had been satisfactorily concluded. Months later, somewhat to his amazement, the British gunboats arrived.

A motley cast of characters played their part in the ensuing tragicomedy: bungling officials, rogue merchants, unscrupulous politicians, muscular military imperialists and the dithering, bewildered emperor.

Internet: <www.guardian.co.uk> (adapted).

Agora, seguem as sugestões de tradução:

As Guerras do Ópio foram um episódio inglório para ambos os lados. Elas foram desencadeadas por uma potência (1) imperial incipiente (2) sendo esnobada (3) e recusada (4) em sua busca por (5) comércio: não havia nada, os chineses disseram arrogantemente aos emissários britânicos, que a China precisasse ou quisesse (6) do Ocidente – nem seus produtos* (7) , nem suas ideias, e definitivamente nem sua companhia.

Em março de 1839, o comissário de Cantão (8) Lin Zexu, que tinha acabado de prender (9) 1600 fumantes** de ópio e de confiscar 14 toneladas inteiras (10) do narcótico, ordenou que os comerciantes (11) estrangeiros entregassem seus estoques e se comprometessem a não trazer mais (12). Os britânicos concordaram em entregar 20.000 baús (13) de ópio cultivado (14) em Bengala*** da melhor qualidade (15), garantindo (16) aos comerciantes o tempo todo (17) que a coroa iria indenizar (18) suas perdas, transformando, então (19), o litígio (20) em um assunto (21) de Estado. Lin relatou (22) ao Imperador Daoguang que os problemas haviam sido**** concluídos***** (23)  satisfatoriamente. Meses depois , um pouco******  para seu espanto (24), os navios de guerra (25) britânicos chegaram.

Um elenco diverso (26) de personagens atuou em seus papeis (27) na tragicomédia que se seguiu (28): os oficiais desajeitados, os comerciantes trapaceiros, os políticos inescrupulosos, militares imperialistas musculosos (29) e o hesitante, atônito imperador.

(1) um poder (2) emergente, nascente (3) contestada (4) contrariada, rejeitada (5) em seu desafio por, em sua demanda por (6) desejasse (7) mercadorias (8) cantonês (9) logo após prender, tendo recém prendido (10) um total de 14 toneladas (11) mercadores (12) garantissem que não trariam mais, se encarregassem de não repô-los (13) carregamentos (14) colhido, plantado (15) de qualidade superior, “premium” (16) assegurando (17) durante todo o tempo (18) cobriria, cuidaria das (19) assim (20) a disputa (21) uma questão, um negócio (22) reportou (23) resolvidos (24) sua surpresa (25) as belonaves, os barcos armados, os barcos de guerra, a Marinha (26) heterogêneo, variado (27) desempenhou seus papeis, fez o seu papel (28) no desenrolar da tragicomédia (29) robustos.

*não foi aceito “bens” | **não foi aceito “fumadores” | ***não foi aceito nem “Bengal” nem “Bengali” | ****não foi aceito “foram” | *****não foi aceito “liquidados” | ******não foram aceitos “de certo modo”, “de alguma forma”, “um tanto para”.

Cheers!

Uma das tarefas que os candidatos que farão o CACD 2013 muito provavelmente enfrentarão é o Resumo. Digo muito provavelmente tanto porque historicamente essa tarefa tem sido uma constante nas provas de terceira fase (se avaliarmos as provas desde 2001, apenas no ano de 2008 não houve Resumo), quanto porque as habilidades que são testadas com essa tarefa são de fato muito relevantes para aqueles que almejam a carreira de diplomata. Dada, então, essa probabilidade, é muito importante que os candidatos saibam como abordar essa tarefa para que possam ter maiores chances de obter uma boa avaliação.

A prova de inglês da terceira fase vale um total de 100 pontos, os quais estão, desde 2009, assim divididos: 50 pontos para uma Redação, 20 para uma Tradução, 15 para uma Versão, e 15 para um Resumo. A única informação que o último Guia de Estudos (2012) trouxe sobre os critérios de avaliação do Resumo é que “o candidato deve apresentar capacidade de reelaborar, de forma concisa e coerente, o texto proposto. São critérios de avaliação a objetividade, a precisão, a clareza e a concisão do texto, além naturalmente da correção e propriedade no uso da língua inglesa”. Apesar de os Guias de Estudos não dizerem como são atribuídos esses 15 pontos, é possível observar duas coisas nas marcações que os examinadores fizeram nos espelhos das correções das provas dos dois últimos anos:

1. Ao lado do texto elaborado pelos candidatos, havia uma marcação que ia de 1 a 6, e associada a essa marcação havia, para cada número, uma nota de zero a dois pontos (variando entre 0,0 – 0,5 – 1,0 – 1,5 – 2,0). Veja três exemplos extraídos de espelhos de três candidatos:

Exemplo 1                 Exemplo 2               

2. A final do texto, o examinador conferiu a nota dividida em duas partes: summary (que foi a soma dos pontos atribuídos à numeração 1 a 6) e use of English. Veja três exemplos extraídos dos espelhos dos três candidatos, respectivamente:

Sendo assim, apreendemos que 12 pontos foram atribuídos a summary – ou seja, à capacidade de o candidato resumir cada um desses seis pontos principais do texto de forma objetiva e concisa – e os outros 3 pontos foram atribuídos a use of English, sendo essa uma nota global de gramática e vocabulário. Isso quer dizer que os erros de precisão gramatical não foram descontados como na Redação (na qual para cada erro o candidato perde entre 0,5 e 1,0 ponto) e que a habilidade principal sendo testada nessa tarefa é a de concisão – ou melhor, a “objetividade, a precisão, a clareza e a concisão do texto”.

Tendo isso em mente, sugiro abaixo alguns passos que podem ser seguidos para a produção do Resumo:
1. Em primeiro lugar, leia o enunciado e o texto com muita atenção.
Certifique-se de que você compreendeu tanto as instruções quanto o texto em si. É bem comum acontecerem erros de precisão no Resumo porque o candidato leu o texto apressadamente e entendeu alguma informação de forma equivocada.
2. Pense na estrutura do texto que você leu.
Qual é a tese do autor? Quais argumentos ele agencia para corroborar essa tese? Quais exemplos ele usa para ilustrar esses argumentos? Conseguir identificar o que é argumento e o que é exemplo é importante porque o resumo deve ter foco na argumentação – alguns exemplos podem ser muito brevemente mencionados para não deixar as ideias vagas, mas eles não são o foco do seu texto.
3. Faça anotações sobre o conteúdo.
Fazer anotações é importante porque dá a oportunidade de destacar algumas palavras-chave do texto, muitas das quais o candidato terá que parafrasear já que o Resumo deve ser escrito em suas próprias palavras.
4. Organize suas anotações em um plano.
Pensando em como vai apresentar aquelas informações de forma objetiva, coerente, clara e concisa, organize suas anotações pensando em como essas ideias estarão dispostas em seu resumo – tendo em mente também a separação dos parágrafos. Nesse sentido, procure também já pensar nas conjunções que usará para conectar os parágrafos e as frases, conjunções as quais deixarão seu texto mais coeso.
5. Agora sim, comece a escrever seu resumo.
Escreva seu resumo com base em suas anotações – isso deve ajudar a economizar tempo e a escrever com suas próprias palavras. Além disso – e isso é muito importante – mantenha sua linguagem concisa e direta. A tarefa do Resumo não é o lugar adequado para você mostrar que sabe usar estruturas gramaticais avançadas ou mesmo uma linguagem mais “formulaica” – deixe isso para a Redação. Lembre-se: a parte de use of English vale apenas três pontos, e é mais importante, nesse sentido, fazer paráfrases mais concisas e precisas das ideias do texto do que utilizar uma linguagem idiomática.
6. Conte o número de palavras.
Não há qualquer indicação no Guia de Estudos sobre o que acontece se o candidato escrever mais de 200 palavras; assim, não sabemos se o examinador para de ler na ducentésima palavra ou se desconta pontos a cada palavra a mais. Dessa forma, siga as instruções à risca: não escreva mais de 200 palavras. Se você ultrapassar esse limite, diminua seu texto até atingi-lo.
Já aqueles que são mais concisos e conseguem terminar o Resumo em 180, 170 palavras, sugiro que aproveitem esse “saldo de palavras” para incluir mais informações – desde que isso não interfira na coerência do desenvolvimento do seu texto. Afinal, eu já vi em alguns espelhos de candidatos a seguinte anotação do examinador:

7. Terminado o texto, faça uma correção cuidadosa.
Muitas vezes ao cortar palavras e expressões inteiras para chegar à marca das 200 palavras, acabamos precisando mexer na concordância verbal, nos pronomes etc. Releia seu texto procurando identificar possíveis imprecisões gramaticais. Além disso, se houver tempo, faça uma correção pensando nos erros que você sabe que tem uma maior tendência a cometer (por exemplo, com o uso do artigo definido).

Se a prova de inglês de terceira fase for temática, como foi a do CACD 2012, pode ser uma boa ideia começar a prova pelo Resumo, já que a leitura do texto a ser resumido vai provavelmente ajudar a ativar vocabulário e ideias a respeito do tema – o que ajudará tanto com as traduções quanto, e talvez principalmente, com a Redação. Além disso, é importante que o candidato tenha algum planejamento do tempo que gastará em cada tarefa na terceira fase, já que dispõe apenas de quatro horas no total. Essa é uma decisão subjetiva, pois depende muito das facilidades e dificuldades que cada um tem com cada uma das tarefas, mas uma sugestão seria gastar cerca de uma hora no Resumo, 30 minutos na Tradução, 30 minutos na Versão e duas horas na Redação – já contando com o tempo das correções e de passar a limpo os rascunhos, se for o caso.

Cheers!